O que as relações no trabalho fazem à saúde mental das equipas

Saúde Mental e Emocional Saúde Mental e Emocional

A investigação em bem-estar subjetivo é consistente num ponto que as organizações raramente exploram de forma deliberada: a qualidade das relações interpessoais é um dos preditores mais robustos de saúde mental, mais do que o salário, o estatuto ou as condições físicas de trabalho. Robert Waldinger, diretor do Estudo de Desenvolvimento de Adultos de Harvard, o maior estudo longitudinal sobre felicidade humana alguma vez conduzido (oito décadas, mais de 700 participantes), chegou a uma conclusão simples: as pessoas que eram mais felizes e saudáveis aos 80 anos não eram as mais ricas, as mais famosas, ou as que tinham trabalhado mais. Eram as que tinham relações de maior qualidade.

Em contexto profissional, passamos entre 40 e 50 horas por semana com pessoas que não escolhemos, em condições que raramente controlamos, trabalhando em direção a objetivos que são frequentemente definidos por outros. O que acontece nessas relações, a qualidade do tecido interpessoal da equipa, pode ser um fator de proteção poderoso ou um fator de risco significativo para a saúde mental de cada pessoa envolvida.

A solidão no trabalho: uma epidemia silenciosa

A solidão no trabalho é um fenómeno crescente e subestimado. Um estudo da Cigna de 2020 identificou que mais de 60% dos adultos americanos se sentiam solitários, e que os trabalhadores em contexto profissional eram dos grupos mais afetados. Em Portugal, não há dados equivalentes sistematicamente recolhidos, mas a tendência europeia aponta na mesma direção.

A solidão no trabalho não significa necessariamente trabalhar sozinho. Significa trabalhar num ambiente onde as relações são superficiais, transacionais, ou francamente hostis. Significa estar cercado de pessoas mas não sentir conexão real com nenhuma delas. Significa não ter ninguém com quem partilhar uma preocupação, pedir uma opinião honesta, ou simplesmente descansar da performance constante que o trabalho exige.

O impacto físico da solidão é, a esta altura, bem documentado. John Cacioppo, o investigador que mais contribuiu para a ciência da solidão, mostrou que a solidão crónica tem impactos imunológicos, cardiovasculares e cognitivos comparáveis ao hábito de fumar 15 cigarros por dia. Não é uma questão de preferência ou de temperamento. É uma questão de saúde pública com ramificações organizacionais que raramente são tomadas a sério.

O que as relações de trabalho fazem ao cérebro

A neurociência social fornece um enquadramento biológico para aquilo que a investigação em bem-estar há muito observava: o cérebro humano é fundamentalmente social. O sistema de ameaça e recompensa do cérebro responde a estímulos sociais com a mesma intensidade com que responde a estímulos de sobrevivência física. A exclusão social ativa as mesmas regiões cerebrais que a dor física. O reconhecimento e a pertenca ativam o sistema de recompensa dopaminergíco com a mesma eficácia que recompensas materiais.

Isto significa que o ambiente interpessoal de uma equipa não é apenas um fator de satisfação subjetivo. É um determinante biológico do estado do sistema nervoso de cada membro. Uma equipa com clima interpessoal positivo, onde as pessoas se sentem vistas, valorizadas e seguras, é uma equipa cujos sistemas nervosos estão numa configuração de maior abertura, criatividade e colaboração. Uma equipa com clima hostil, de comparação constante, ou de desconfiança estrutural, é uma equipa que opera em modo de ameaça, com o córtex pré-frontal comprometido precisamente nas funções de que mais precisa.

O conceito de corregulação emocional, desenvolvido pelos neurocientistas Daniel Siegel e Stephen Porges, explica o mecanismo: os sistemas nervosos das pessoas que interagem regularmente influenciam-se mutuamente. Um líder em estado de calma ativa e regulação transmite essa regulação para a equipa de formas que são, em parte, neurologicamente automáticas. Um líder cronicamente ansioso, desregulado ou em modo de ameaça tem o efeito oposto. A qualidade das relações na equipa não é apenas psicológica. É fisiológica.

O que torna as relações de trabalho protetoras para a saúde mental

Nem todas as relações de trabalho positivas têm o mesmo impacto na saúde mental. A investigação identifica características específicas que diferenciam relações que protegem de relações que apenas são agradáveis.

A sensação de ser genuinamente visto e valorizado como pessoa, e não apenas como função, é um dos fatores mais robustos. O reconhecimento do trabalho é importante, mas o reconhecimento da pessoa vai além disso: é o gestor que nota que algo está diferente hoje; é o colega que lembra que a tua mãe foi operada e pergunta como correu; é a equipa que sabe o que te entusiasma e o que te cansa, não apenas o que produzes.

A reciprocidade na vulnerabilidade é outro fator crítico. Relações onde apenas uma pessoa pode mostrar dificuldade ou incerteza são relações desequilibradas que criam dependência em vez de conexão. Equipas onde os diferentes membros podem, em diferentes momentos, pedir ajuda, admitir que não sabem, e mostrar que estão em dificuldade, são equipas com maior coesão e maior resiliência coletiva.

A previsibilidade e a confiança na consistência das outras pessoas é o terceiro elemento: saber que a reação de um colega ou gestor a um erro vai ser construtiva e não punitiva, que o que é dito numa conversa informal não vai aparecer numa reunião de avaliação, que há um contrato implícito de respeito mútuo que se mantém mesmo em momentos de tensão.

O que as relações tóxicas fazem à saúde mental

O efeito de relações de trabalho tóxicas sobre a saúde mental é bem documentado e significativo. O conflito interpessoal crónico, a agressividade passiva, a exclusão social deliberada, e o assédio moral são fatores de risco para perturbações de ansiedade, depressão e burnout com evidência científica robusta.

Há um fenómeno específico que a investigação identifica como particularmente prejudicial: as micro agressões. Comportamentos que, isolados, parecem irrelevantes ou facilmente ignoráveis (o comentário que desvaloriza subtilmente, o olhar que exclui, o tom que diminui) mas que, em acumulação e ao longo do tempo, criam um ambiente de ameaça social permanente que esgota o sistema nervoso e corroi a saúde mental de forma progressiva. A pessoa que experiencia micro agressões com frequência raramente consegue identificar um incidente específico que explique o modo como se sente. O efeito é difuso, difícil de nomear, e frequentemente desacreditado pelos outros precisamente por isso.

A cultura de fofoca e de rumor, presente em muitas organizações como substituto de comunicação real, tem também impactos negativos sobre o clima de confiança que tornam as relações superficiais e a vulnerabilidade impossível. Quando as pessoas sabem que o que dizem pode ser usado contra elas ou distorcido em conversas de corredor, fecham-se. E o fechamento é, em si mesmo, um fator de risco para a saúde mental.

O que o trabalho híbrido e remoto mudou

A transição para modelos de trabalho híbrido e remoto acelerou algumas tendências que já existiam e criou novas. A perda de momentos informais de conexão, que eram os contextos onde muitas relações de trabalho se construíram e se mantiveram, é o impacto mais documentado. O café da manhã, os cinco minutos antes da reunião começar, o almoço partilhado de forma espontânea: são momentos de conexão aparentemente triviais que constroem, ao longo do tempo, o tecido interpessoal que sustenta a coesão de equipa.

A fadiga das videoconferências, a perda de linguagem corporal como canal de comunicação, e a redução da espontaneidade das interações são outros efeitos documentados do trabalho remoto sobre a qualidade das relações interpessoais. O que se perde não é apenas a agradabilidade da proximidade física. É a informação relacional que permite ajustar o comportamento, reconhecer estados emocionais nos outros, e responder de forma adequada ao que está a acontecer.

Isto não é um argumento contra o trabalho remoto. É um argumento para que as organizações que o adotam invistam deliberadamente na criação de contextos de conexão que compensem o que se perde quando as pessoas não partilham o mesmo espaço físico.

O que as organizações podem fazer

Construir ambientes de trabalho onde as relações protegem a saúde mental não é uma questão de simpatia ou de boa vontade geral. É uma questão de design deliberado.

Ao nível da equipa: criar rituais de conexão que aconteçam regularmente e que não sejam sobre resultados; celebrar não apenas os sucessos coletivos mas os momentos de dificuldade partilhada que criam coesão real; criar espaço para que as pessoas se vejam como pessoas e não apenas como funções. Ao nível da liderança: formar gestores para modelar a vulnerabilidade calculada e a conexão genuina em vez de apenas a competência e a autoridade; tornar o reconhecimento uma prática regular e específica, não apenas ocasional e genérica; e criar as condições para que os conflitos interpessoais sejam geridos em vez de suprimidos.

E ao nível da cultura: o sinal mais claro de que uma organização leva a sério o impacto das relações na saúde mental é o que faz quando as relações se tornam tóxicas. Uma organização que tolera o assédio moral, a exclusão sistemática, ou a agressividade crónica porque quem as pratica tem um bom desempenho comercial está a comunicar algo muito preciso sobre o que valoriza. E essa comunicação tem impacto em toda a gente que lá trabalha.

→  A Workwell Academy desenvolve programas de formação em comunicação, gestão de conflitos e construção de equipas que promovem relações de trabalho saudáveis e protegem a saúde mental das organizações. Fale connosco.

próxima leitura

Saúde Mental e Emocional Saúde Mental e Emocional

Saúde mental em equipas híbridas: os desafios que o teletrabalho não resolveu, apenas transformou

Riscos psicossociais: a avaliação que a lei exige e as empresas continuam a adiar

Mobbing: o que acontece quando a cultura da empresa torna o assédio invisível

próxima leitura

Saúde mental em equipas híbridas: os desafios que o teletrabalho não resolveu, apenas transformou

Quando o teletrabalho generalizou de forma repentina e forçada em 2020, muitas organizações ficaram surpreendidas com aquilo que funcionou. As pessoas adaptaram-se mais rapidamente do que se esperava. A produtividade, em muitos setores, manteve-se ou até melhorou. As ferramentas digitais de colaboração demonstraram uma capacidade que, até então, muitas empresas

Riscos psicossociais: a avaliação que a lei exige e as empresas continuam a adiar

Há uma obrigação legal que a maioria das empresas portuguesas conhece, reconhece formalmente como sua e sistematicamente não cumpre. A avaliação e gestão de riscos psicossociais no local de trabalho é exigida pela legislação nacional e europeia há anos, está integrada no quadro normativo da segurança e saúde no trabalho

Mobbing: o que acontece quando a cultura da empresa torna o assédio invisível

Existe uma forma de violência no local de trabalho que raramente aparece em relatórios de RH, quase nunca é mencionada em reuniões de gestão e, na maioria das vezes, não é sequer reconhecida pelas próprias vítimas. Chama-se mobbing, também conhecido como assédio moral no trabalho, e o seu traço mais